A Síndroma de Alport (SA) é uma doença hereditária que provoca a perda progressiva da função renal e auditiva, podendo ainda afectar o sistema visual. Esta síndrome foi identificada pela primeira em 1902, por L. Guthrie, que encontrou uma família em que 12 indivíduos apresentavam hematúria (perda de sangue na urina) recorrente. Posteriormente, Hurst descobriu que alguns membros desta mesma família desenvolveram urémia. Mas foi em 1927 que Cecil Alport associou o aparecimento de surdez à insuficiência renal que os membros dessa família apresentavam, descobrindo ainda que os homens afectados morriam com urémia e as mulheres afectadas viviam até tarde. A partir deste momento, esta alteração associada a distúrbios renais e auditivos denomina-se “Síndrome de Alport”.

Actualmente sabe-se que a Síndrome de Alport é causada por mutações nos genes que codificam algumas cadeias de colagénio tipo IV, principal componente das membranas basais de diversos órgãos, nomeadamente do rim e do cristalino (nos olhos). Mas também é possível que ocorram outras alterações como disfunções cerebrais e alterações da tiróide e paratiróides.

A Síndroma de Alport pode ter diferentes padrões de hereditariedade, dependentes do tipo de mutações genéticas, existindo duas formas de herança da doença. Uma das formas está ligada ao cromossoma X (ocorre em 85% dos casos) e é explicada por mutações no gene COL4A5. Outra das formas é ser herdada de uma forma autossómica recessiva. Muitas vezes, os pais de uma criança com uma doença genética autossómica recessiva não estão afectados por ela mas são portadores de uma cópia do gene alterado.

No entanto, apesar de a doença ser hereditária, há alguns casos em que não se encontra qualquer história familiar, podendo-se estar face a novas mutações genéticas.

Na maior parte dos portadores desta síndrome, a condição é herdada como ligada ao cromossoma X (o gene envolvido na desordem está localizado no cromossoma X). Nas pessoas do género masculino, que têm apenas um cromossoma X, uma cópia alterada deste gene é suficiente para causar Síndrome de Alport severa. Assim se explica o porquê de quase todos os homens de uma família com SA desenvolverem insuficiência renal. As pessoas do género feminino possuem duas cópias do cromossoma X e, deste modo, uma mutação num dos genes, resulta apenas no aparecimento de sangue na urina, não havendo o desenvolvimento de insuficiência renal. Por ser um tipo de hereditariedade ligada ao cromossoma X, um pai não passará esta síndrome aos filhos do género masculino.

No que respeita ao quadro clínico, a hematúria microscópica é uma das principais características observadas desde o nascimento (ou aparece nos primeiros meses de vida). Com o passar do tempo, pode haver proteinúria e os rins entrarem em falência.

A perda auditiva neurossensorial é bilateral, simétrica e progressiva, sendo confirmada pelo exame audiométrico e instalando-se ainda na adolescência em 60% dos homens afectados e 40% das mulheres com a síndrome. Nas alterações oculares, podem-se encontrar manchas oculares, cataratas, nistagmo e miopia, mas o lentecone anterior, (inchaço da lente) é considerado como o sinal característico da SA por muitos autores. A doença evolui progressivamente com a idade, sendo que, em muitos casos, na adolescência é encontrada perda visual e auditiva total e insuficiência renal crónica. As alterações oculares ocorrem em 15% das pessoas afectadas com SA.

Epidemiologia

Esta síndrome é mais frequente em homens do que em mulheres e estima-se que a sua prevalência na população geral é de um caso em 50 000 pessoas.

Existem poucos dados estatísticos sobre a SA mas segundo o USRDS (United States Renal Data System) de 1999, a Síndrome de Alport é responsável por cerca de 3% dos casos de insuficiência renal crónica terminal em crianças e 0,2% na população adulta.

Prevê-se ainda que a SA é a doença renal hereditária que mais atinge os glomérulos.

Sinais/Sintomas e Diagnóstico

Os sinais e sintomas clínicos da SA, bem como os critérios diagnósticos, são variáveis, o que dificulta a definição exacta do que é esta síndrome.

Gregory et al, em 1996, propôs 10 critérios para o diagnóstico da síndrome de Alport. Se uma pessoa tiver familiares com a síndrome, para que seja diagnosticado com SA, necessita que, pelo menos 2 dos critérios abaixo mencionados estejam presentes.

Se não tiver história de antecedentes familiares tem de apresentar pelo menos 4 dos critérios:

  • História familiar de nefrite ou hematúria de causa desconhecida;
  • Hematúria persistente, sem que haja outro diagnóstico de nefropatia hereditária (como a doença poliquística);
  • Surdez bilateral neurossensorial, com um desenvolvimento progressivo e que não estava presente na infância (normalmente aparece antes dos 30 anos de idade);
  • Mutação no gene COL4An (em que n é igual a 3, 4 ou 5);
  • Evidência a nível histológico, imunológico e químico da ausência parcial ou total do epítopo na membrana basal glomerular ou na membrana basal epidérmica, ou em ambas;
  • Anomalias estruturais da membrana basal glomerular, em particular engrossamento e adelgaçamento;
  • Lesões oculares, incluindo: lenticono anterior, catarata subcapsular posterior e distrofia polimórfica posterior;
  • Progressão gradual para falência crónica renal terminal no utente ou em pelo menos 2 membros da família;
  • Macrotrombocitopenia ou inclusões granulocíticas Tumores benignos difusos no esófago, nos genitais femininos ou em ambos.

O procedimento diagnóstico que confirma uma eventual suspeita clínica de SA é a biópsia renal. É através deste acto que se consegue ver as alterações da membrana basal glomerular, nomeadamente o seu engrossamento e adelgaçamento. Através de análises histológicas, imunológicas e bioquímicas (com anticorpos mononucleares que reconhecem os diferentes domínios das cadeias do colagénio IV), pode-se estudar as alterações destas cadeias nos vários tecidos afectados pela Síndrome de Alport.

Presentemente, também se pode realizar estudos a nível histológico, fisiológico e bioquímico através de uma biópsia da pele. Este é um procedimento pouco invasivo e alternativo.

Prognóstico e Tratamento

Não existe uma cura específica para esta síndrome. O tratamento deve basear-se numa contínua monitorização e vigilância de alguns parâmetros e valores analíticos, havendo sempre cuidados que não podem ser desvalorizados nem negligenciados, nomeadamente: 

  • Utilização de protectores auditivos em ambientes muito ruidosos;
  • Utilização de aparelho auditivo quando a pessoa já não ouve bem;
  • Alertar a pessoa de que há medicamentos que são tóxicos para o sistema auditivo (como a furosemida);
  • Como a perda de audição pode ser progressiva, aconselha-se a que a pessoa aprenda linguagem gestual e a ler os lábios das outras pessoas;
  • Consultas de oftalmologia e otorrino frequentes;
  • Se a pessoa tiver cataratas e tiver aval médico, deve ser submetida a cirurgia para remoção das mesmas;
  • Quando existem alterações oculares, deve-se proteger os olhos com óculos de sol que realmente protejam dos raios UV; Se a SA evoluir para uma insuficiência renal crónica terminal e os rins entrarem em falência, será necessário realizar diálise e/ou transplante renal;
  • O controlo da tensão arterial é fundamental;
  • Alterações na alimentação também serão sugeridas;
  • Aconselhamento genético às pessoas portadoras da síndrome e que desejem ter filhos;
  • Eventual transplante de células tronco (ou estaminais) para a recuperação das funções renais. 

Referências Bibliográficas:

[1] OSTA, F .; GALVÃO, M .; CARVALHO, F. – Nova abordagem ao diagnóstico do Alzheimer: pesquisa da cadeia α5 do colagénio tipo IV na pele. Rev Port Nefrol Hipert ISSN0872-0169. Vol. 19, nº2 (2005) p. 91-101

[2] ELAMIDE, Bruno C. [et al.] – Síndrome de alport: relato de caso. Revista do Hospital Universitário Getúlio Vargas. Brasil ISSN 1677-9169. Vol. 10, nº 2 (Jul. – Dez. 2011), p.35-38

[3] SILVESTRIM, M .; FERREIRA, D .; COHEN, J. – Síndrome de Alport: Síndrome de Alport: relato de um caso com recuperação total. Arquivos Brasileiros de Oftalmologia. Brasil ISSN 0004-2749. Vol. 64 (2001), p.461-463

[4] TAZÓN, B .; TORRA, R. – El síndrome de Alport. Suplemento de Nefrologia. Barcelona. Vol.XXII (2003), p. 29-39

Extraído: www.portaldadialise.com